terça-feira, 25 de Setembro de 2012

Como comunicar a notícia da morte


No início dos workshops coloco sempre à disposição dos participantes um tempo para colocarem questões. Acima de tudo, pretendo saber o que traz as pessoas a participar, nomeadamente as questões que têm, relacionando o tema luto com o desempenho efetivo das suas funções profissionais.

Desde maio que já ministrámos 32 edições em todo o país com mais de 650 participantes. Uma das questões mais frequentes é: "Como comunicar a notícia da morte a alguém?". Dado tratar-se de participantes que, na maior parte, colaboram em casas de repouso, a questão é dirigida à forma de comunicar a notícia da morte às famílias dos utentes que morreram.

Neste sentido, retorno a questão da comunicação às famílias como a abordagem de gerir uma má notícia por parte de quem comunica. Abordagem no sentido da consonância entre o comportamento verbal e não-verbal do comunicador, ou seja, dizer aquilo que se sente.

Quem comunica é o profissional, mas também uma pessoa que é considerada por muitos como "a extensão da família". O profissional que cuida em fim de vida é visto pela família como alguém que pertence "à sua família" pelo carinho e empenho que dedicam diariamente ao utente. Assim, o profissional que comunica a notícia da morte à família, muitas das vezes, pela força da vinculação que ganhou com o falecido, está ele próprio em luto!

Na generalidade, temos uma percepção da reação que os outros vão ter e isso condiciona a forma como comunicamos a notícia da morte. Parece, por exemplo, mais fácil comunicar a notícia da morte à família de um idoso que partiu, mas que viveu em plenitude os seus últimos dias, do que comunicar a um idoso a morte prematura do seu neto. O impacte da morte, a idade, a vinculação, a nossa estrutura de personalidade e gestão do stress, o apoio social... desempenham um forte preditor da forma como vamos receber e gerir a notícia da morte, assim como a forma como a comunicamos.

O profissional poderá ter um papel fundamental na gestão da má notícia e, para tal, deverá entregar-se à família sem reservas. A título de exemplo: deverá receber a família num local reservado, mantendo-se ao nível desta (sentados, olhos nos olhos, adaptar a linguagem, tocar sem medos) e comunicar a notícia evitando (a) mentir sobre a morte (quanto mais tempo demorar a comunicar, maior a tensão interna da família e a do profissional que comunica); (b) criticar o comportamento demonstrado pela família após a notícia (crê-se que quando a família demonstra apatia/não chorar após a notícia, despoleta no profissional a tendência para criticar "Se não chora é porque não gostava do falecido"). Mesmo que o profissional não verbalize, todo o seu corpo (postura e gestos faciais) pode transmitir essas mensagens de crítica; ou se a família entra em choque e chora, o profissional pode assumir uma postura paternalista ou moralista "Não chore, ele/a não ia gostar de o ver assim"), entre outras.

Pretende-se que comuniquemos a notícia com todo o humanismo e dignidade. Nesta perspectiva temos que aceitar as reações da família evitando julgamentos que surgem naturalmente por causa das expetativas que levamos ("Eles vão passar-se..." ou "Nem vão ligar nenhuma, pois raramente visitavam o falecido...").

Não há pois uma "embalagem" de como comunicar a notícia da morte, pois cada pessoa sofre à sua maneira e o luto é um processo individual e exclusivo (embora influenciado pelos valores e cultura onde nos desenvolvemos). Mas também não existe outra forma de dizer "Lamento informá-lo/a do falecimento de X", portanto devemos, após a notícia, estar ao lado da família sem desistir dela, porque o sofrimento da família projeta no profissional reações que, muitas das vezes, são contrárias à atitude profissional exigida ("Quem está de luto é a família... não podemos chorar."), devemos estar atentos às dificuldades expressas e dúvidas sobre o que fazer. Existem um conjunto de técnicas que exploramos ao longo do workshop e um conjunto de "dicas" sobre o comportamento verbal e não-verbal do profissional, mas continuam a ser "embalagens"…

Comunicar significa relacionarmo-nos, empatizarmo-nos, disponibilizarmo-nos!

As más mensagens que enviamos num momento tão único e difícil podem exprimir-se através deste testemunho de um jovem de 17 anos que está a morrer:

"Os meus amigos já não me veem visitar. A minha família quer acreditar que vou sobreviver. Vou morrer sozinho!"

2 comentários:

  1. Comunicar algo tão difícil exige certamente muito preparo destes profissionais. Envolve por parte do "emissor" um lado emocional que necessitará de um suporte racional para comunicar de forma que possa apoiar o "receptor" da mensagem.

    ResponderEliminar
  2. Cara Rosangela,

    Obrigado pelo s/ comentário! O emissor necessita de entender o seu "lado emocional", como bem diz. E porque, por vezes, o emissor tem dentro de si perdas pessoais profundas que podem influenciar a sua forma de comunicar uma notícia tão dolorosa a outros. É importante que cada pessoa conheça os seus limites e dficuldades, para melhor entender a reacção que vai assistir por parte do "receptor" e empatizar-se com ela de forma humana, digna e confiável. Até breve

    ResponderEliminar